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  • Rafa Mattos | Jardineiro de Amor

Adolescência, uma realidade imposta

Ei, você que tem uma filha ou filho que já passou dos 18 anos, se tivesse uma pílula azul e uma vermelha, tipo no filme Matrix, para pular o terror da adolescência e ir direto para uma pseudo-maturidade, você escolheria qual?


Brincadeiras à parte, sou um pai vivendo uma adolescência precoce, e ela já deu sinais de que veio para ficar, pelo menos pelos próximos anos. Aí você me pergunta: se é precoce, porque não seria a pré-adolescência? A pré-adolescência também não é fácil, mas a minha filha já é uma adolescente porque ela, como na sua altura física e desenvolvimento corpóreo, deu um salto e já virou “mulher”. E sei que a maioria aqui vai me entender. Pior, ela tem apenas 10 anos e sete meses.

Identidade, uma prioridade


O adolescente vive um momento de formação de suas próprias opiniões, que já não são mais aquela birra infantil sem argumentos. Eles hoje além dos argumentos, mesmo que em algumas vezes sejam banais, já impõem a sua própria identidade. Eu tentei, dentro dos meus limites, sempre incentivar que Giulia valorizasse sua identidade em gostos e opiniões, pois sei que lhe traria um diferencial em seu desenvolvimento.


Pois bem, as transformações que chegam com a adolescência trazem mudanças hormonais, humores alterados, choros desmotivados (ali chora à toa igual a mim desde sempre), desesperos sem motivos (outro dia foi um chororô danado por causa das “minhas amigas”) e suas próprias prioridades. A prioridade é o que arremata tudo, e pela minha pequena experiência como pai de adolescente, já sinto essa tal prioridade será difícil de combater.


Prioridade, o que é isso mesmo?


Prioridade tem a ver com o que mais nos importa. Com aquilo que colocamos em primeiro lugar. Tudo o que tem a ver com importância. E importante é algo que nós importamos (como importação de algo de fora para dentro mesmo) para dentro do nosso coração. Prioridade é algo que nos rouba toda a atenção. Entenderam o problema que estou vivendo e que todas mães e pais de adolescentes vive?


Até a última vez que estive com Giu há pouco menos de seis meses, ela me olhava com brilho nos olhos. Eu era o melhor pai do mundo, e ela fazia questão de me dizer isso toda hora. A ponto de eu mesmo dizer a ela que esse referencial poderia não ser verdade, pela própria incapacidade dela em entender minha falhas. Mas eu sempre arrematava a ideia dizendo que era sim o melhor pai do mundo para ela, pois sou o pai dela, e isso é tudo para mim. Dizia ainda “Vou sempre buscar ser o melhor pai do mundo.”.


Nesse últimos dias eu reencontrei o maior amor que tenho, a minha vida vivendo em outro corpo, e ela também demonstrou que o seu amor por mim é gigante. Mas chegou uma nova fase, de fato. Uma realidade imposta a mim. Chegou uma adolescente, com seus próprios gostos, opiniões, identidades e prioridades. Estamos grudados há seis dias e não ouvi ainda “Você é o melhor pai do mundo.”. Aquele montão de “eu te amo” que sobravam, agora fazem uma falta danada. Estão tão raros… rs

Giulia agora pertence ao mundo. “Eu estou criando meu filho pro mundo.” era o que eu ouvia da minha mãe, e que sempre fez muito sentido para mim. Crio a minha filha com essa mesma ideologia. Faz parte de mim. É minha crença. Eu quero ela comigo, mas eu quero mais ainda que ela queira estar comigo. Aprendi com a minha mãe e hoje ensino a minha filha. Faz parte daquilo que disse acima, sobre seus próprios desejos etc.

Mas agora eu vou explicar melhor o momento que a minha ficha caiu e me trouxe até aqui, em tempo real…


Coloquei a mesa para comermos nossa comida do BenneDitto, que tinha acabado de chegar. Ela ama o BenneDitto, então quando não faço nossa própria comida, peço sabendo que ela vai amar. E mais uma vez ela amou.

Mas eu tive que pedir que ela deixasse um pouco o celular (no app) com as amigas para podermos comer. Ela veio, tudo bem. Comemos, mas comemos com poucos olhares e pouca cumplicidade, que nos era tão normal. Até o corpo da adolescente dá os recados. Comeu com um braço apenas e o outro apoiado na perna. Com o corpo desmoronado, como se não tivesse coluna vertebral. Enquanto isso, eu ali na frente, como um Mestre Jedi Yogue das Galáxias comendo com o nariz empinado para o céu e o peito estufado... rs


Comemos, mas o elogio à comida, que era mais espontâneo, só veio quando perguntei. Comeu, como se estive no revezamento da natação para o ciclista do triathlon, e ao terminar, levantou-se, me deixando sozinho à mesa. Me deu uma olhadinha de leve, como quem receia um pedido de “fique mais um pouco, vamos conversar…”, mas eu deixei ela seguir a sua prioridade, e ela voltou correndo para as suas amigas no wapp. Em menos de um minuto, já estava sorrindo de novo. A felicidade dela está na tela de 4,7” de um Iphone. Felicidade: entendem que a afetividade dela está vivendo em outro lugar, e por isso ela fez uma escolha? Lembram do que eu sempre falo: sentir, pensar e agir. O sentimento dela criou o seu processo cognitivo e a sua decisão pelas amigas. Só me resta aceitar.


Eu só disse a ela: “Filha linda, quando quiser ver aquele filme que combinamos, fale comigo, tá?! Estou ali no quarto lendo um livro…”. (Mas vim pra cá escrever para vocês...) E ela afirmou com a cabeça e pronto.


Identidade rima com prioridade


Nós vivemos sempre buscando quem nós somos. Nossa própria identidade. Ela agora é mais das amigas do que de mim, da mãe etc, mesmo que essas meninas de repente não a mereçam. Mas a identidade dela agora é ser parte delas. E essa minha percepção já é a confirmação de outros detalhes que venho acompanhando nesses últimos dias. Mas uma das coisas que eu faço com a minha inteligência emocional, um tanto o quanto aguçada, é entender que tudo tem o seu tempo. Eu vou continuar aqui, do lado dela, mostrando a minha perspectiva. Eu também fiz isso, e agora me lembro muuuuuuito melhor, o quanto ser eu mesmo dependeu de ser aquele adolescente dos anos 1990. Minha mãe era um porre até meus 17 anos, mas virou a minha Rainha Branca (minha mãe se chama Alba Regina, e é isso que significa) pouco mais de cinco anos depois. Quando amadureci, entendi tudo o que minha mãe viveu e deixou de viver por mim. Eu sou o seu próprio legado.


Sabe aquele “melhor pai do mundo” que ficou ali em 2019? Não tenho saudade dele. Mas vou fazer tudo para ele voltar, mesmo que leve mais de dez anos.

Giulia é e será a minha eterna prioridade enquanto eu viver. Ou sabe-se lá, depois da vida também. Ela vai caminhando e eu vou atrás. Carinhosamente, ;) Rafa Mattos

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